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Reciclagem resgata dignidade e cidadania dos catadores





 
Ex-professora, Luciana Borges, 30, trabalha hoje na coleta seletiva do Núcleo do Gusmão
Foto: Inês Campelo/DP/D.A Press
O brilho no fundo da latinha de alumínio não significa apenas a cor clara do metal. Para mais de 150 mil pessoas em todo o Brasil, representa também a oportunidade de uma vida menos sofrida. Catador de lixo há oito anos, Paulo José estava desempregado e morando nas ruas quando foi chamado para participar da coleta seletiva no Recife. “Estava numa calçada do Centro quando o pessoal da ONG Cáritas falou para mim e para outros moradores de rua sobre o projeto da coleta seletiva. Muitos achavam que não ia dar em nada, mas eu acreditei e fui ver o que era”. Hoje, aos 32 anos e pai de seis filhos, Paulo José, consegue ter um teto, numa pequena casa nos Coelhos, e alimentar as crianças.

O metal também ajudou a mudar a vida da ex-professora Luciana Patrícia Borges, 30 anos. Ela ensinava em escolas comunitárias do bairro de São José quando percebeu que o pai e os irmãos tinham mais retorno financeiro catando lixo. Acompanhou então a família na coleta seletiva do Núcleo do Gusmão, que deverá em breve se transformar numa associação, e, ao trocar os livros pelas luvas de plástico, melhorou sua vida financeira. Hoje, trabalha de segunda a sábado e ganha até R$ 280 por semana. “Quase um terço da renda vem da venda de alumínio. Com o dinheiro que ganhamos aqui, dá para começar a construir um patrimônio”, conta Luciana.

Histórias de superação como a de Paulo José e de Luciana – que trabalham com lixo selecionado - contrastam com a de outros catadores que trabalham exclusivamente recolhendo o que encontram nas ruas. De segunda a sábado, Januário Ferreira, 37 anos, sai do bairro de Dois Unidos, na Zona Norte do Recife, e vai catando o lixo que encontra pelas ruas e casas até o bairro de São José. Sob o sol escaldante do meio-dia, Januário inicia o caminho de volta. Na carroça, somente papéis, plásticos e papelão. “É muito difícil encontrar latinhas de alumínios na rua. Quando encontro, junto durante várias semanas até ter o suficiente para poder vender”, diz. Por semana, a renda de Januário não passa dos R$ 70, com os quais sustenta quatro filhos, todos pequenos.

O motivo para a diferença de renda entre os catadores é simples: enquanto o quilo das latas de aço é vendido por R$ 0,12 para a reciclagem, o de alumínio pode alcançar até R$ 3. O presidente da ONG Associação Meio Ambiente Preservar e Educar (Amape), Sérgio Nascimento, estima que o catador que tem acesso à coleta seletiva – e, por conseqüência, ao alumínio – tem um aumento de cerca de 80% na renda mensal. “O uso do alumínio leva renda para a base da pirâmide social. A reciclagem não traz só vantagens para o meio ambiente, mas para a sociedade, com a criação de um ambiente de trabalho menos insalubre para os catadores”, comenta. “O Brasil tem uma mão-de-obra enorme preparada para este serviço, esperando apenas que a coletiva seletiva cresça”, diz.

Tabela com preços de materiais recicláveis*
Por quilo

Cobre – R$12
Alumínio - R$3
Aço – R$0,12
Papel – R$ 0,30
Papelão – R$ 0,18
Plástico – R$ 0,50

*Preço vendido pelo catador ao atravessador

No último carnaval, a Amape fez uma campanha para conscientizar os consumidores a distinguirem os materiais que compõem as latinhas. Nos quatro dias de folia, foram arrecadados mais de oito toneladas de alumínio somente no Recife. “Com o uso do alumínio todos saem ganhando: o consumidor, que leva para casa um produto que gela mais rápido; os catadores, que têm aumento na renda; a natureza e o poder público, que economiza com a limpeza”, enumera Sérgio.  

Os catadores não são os únicos a lucrarem com a venda do alumínio. Em Pernambuco, centenas de pessoas trabalham como atravessadores, comprando e vendendo alumínio, num comércio de números não contabilizados. Nos arredores do mercado de Afogados, por exemplo, há pelos menos quinze pontos de compra e venda de sucata de metais. José de Lima, 38 anos, trabalha desde criança neste ramo e há oito anos se sustenta somente com a venda de sucata. “Compramos e vendemos todos os tipos de metal. Pelo preço e pela grande oferta, o alumínio é o mais disputado”, diz José de Lima, que vende o metal principalmente para atravessadores que levam o produto para o Sudeste, onde é reciclado.

No Brasil, calcula-se que pelo menos 70% das capitais têm catadores nas ruas. Estes profissionais – cerca de oito mil somente em Pernambuco - são responsáveis pela coleta de mais seis bilhões de latinhas por ano. Apesar dos avanços com programas de coleta seletiva – que já foram implantados em quase 150 cidades do país –, o Fórum de Lixo e Cidadania estima que 37% das capitais brasileiras ainda têm catadores que trabalham ou moram nos lixões. “Se todas as latinhas fossem de alumínio, muitos outros catadores poderiam ter a chance de uma vida melhor”, acredita o catador Paulo José.

CURIOSIDADES


- A coleta de latas usadas envolve mais de 170 mil pessoas no Brasil que vivem, em média, com renda inferior a dois salários mínimos. Em Pernambuco, estima-se que pelo menos oito mil pessoas se sustentem com a atividade.

- No Nordeste, a reciclagem das latinhas de aço torna-se ainda mais difícil porque a maioria tem tampas de alumínio. Assim, é necessário fazer a separação dos metais antes de iniciar o processo de reciclagem. 

Fonte:
http://www.old.pernambuco.com/hotsite/aluminio/meioambiente.shtml
 




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